Para quem conheceu a Nokia pelo teclado físico, pelo jogo da cobrinha e pela inscrição acima da tela, a ausência de seus aparelhos nas conversas sobre smartphones pode parecer o fim da empresa. Mas a Nokia continuou existindo depois da venda de sua principal operação de celulares à Microsoft, concluída em 2014. A companhia que permaneceu tinha negócios, tecnologia e clientes além dos telefones. [1]
A trajetória da companhia ajuda a compreender essa diferença entre o que o consumidor vê e o que uma organização faz. A operação de aparelhos foi uma etapa de um grupo que reorganizou seus negócios e se concentrou na infraestrutura das redes. [2]
Como a Nokia começou na Finlândia
A origem remonta a 1865, quando Fredrik Idestam instalou uma fábrica de pasta de madeira nas proximidades de Tampere, na Finlândia. Era um negócio associado aos recursos florestais do país, muito distante da eletrônica que tornaria o nome conhecido internacionalmente. [3]
A formação do grupo ocorreu por etapas. Em 1967, a união formal de Nokia, Finnish Rubber Works e Finnish Cable Works reuniu papel, produtos de borracha e cabos em uma mesma organização. A diversificação ajuda a explicar por que a história da companhia não cabe na duração de uma linha de celulares: o nome atravessou setores e estruturas empresariais diferentes. [3]
As atividades de comunicação ganharam espaço a partir dos anos 1960. Vieram equipamentos de rádio, redes telefônicas e, posteriormente, aparelhos móveis. O Mobira Cityman, apresentado em 1987, pertence a essa fase em que o telefone começava a deixar de ser um equipamento restrito a instalações fixas ou veículos. [3]
Dos aparelhos populares aos computadores de bolso
Com Jorma Ollila à frente da empresa, a partir de 1992, a concentração em telecomunicações ganhou força. A Nokia participou do desenvolvimento do padrão digital GSM e, em 1998, ultrapassou a Motorola como maior fabricante mundial de telefones celulares. [3]
O Nokia 3310, anunciado em setembro de 2000, tornou-se um dos objetos mais reconhecíveis dessa fase. O aparelho reunia chamadas, mensagens, capas substituíveis e jogos, entre eles Snake II. Sua reputação de resistência continuou circulando muito depois do lançamento. A fama de “indestrutível”, porém, pertence à memória popular sobre o produto, não a uma certificação técnica. [4]
A empresa também buscava ampliar o que cabia em um telefone. Em setembro de 2006, apresentou o N95 com câmera de 5 megapixels, GPS integrado, conexão Wi-Fi e acesso a redes móveis de alta velocidade para o período. O aparelho usava um mecanismo deslizante que expunha o teclado numérico de um lado e os controles de mídia do outro. [5]
No comunicado de apresentação, a própria Nokia tratava o N95 como um computador multimídia. A proposta era reunir fotografia, navegação, música, vídeo e internet no bolso. Esse registro é importante para entender a crise posterior: a companhia já trabalhava com smartphones e serviços digitais antes de perder sua posição. O desafio não começou com a descoberta tardia de que um celular poderia fazer mais do que ligações. [5]

O que mudou na disputa pelos smartphones
A competição passou a envolver também a facilidade de instalar programas, a oferta de serviços e a capacidade de atrair desenvolvedores. Um registro dessa mudança veio da Apple em julho de 2008: segundo a empresa, a recém-lançada App Store ultrapassou 10 milhões de downloads em seu primeiro fim de semana. [6]
A loja permitia obter aplicativos diretamente no iPhone ou no iPod touch. Programas gratuitos e pagos, cobrança pela conta do usuário e avisos de atualização compunham uma experiência integrada. O valor do aparelho podia crescer depois da compra, conforme novos aplicativos chegavam. [6]
O N95 também permitia instalar software. Portanto, a diferença não pode ser resumida à existência ou à ausência de aplicativos. A comparação entre os anúncios mostra uma mudança de ênfase: reunir funções no aparelho era uma parte da disputa; organizar o acesso contínuo a serviços e programas tornava-se outra. Essa é uma leitura dos modelos apresentados pelas empresas, não a prova de uma causa única para o declínio da Nokia. [5, 6]
A aposta no Windows Phone e a transição difícil
Em fevereiro de 2011, Nokia e Microsoft anunciaram uma parceria pela qual o Windows Phone seria a principal estratégia da fabricante para smartphones. A proposta combinava o sistema e os serviços da Microsoft com a experiência da Nokia em aparelhos, distribuição e mapas. O acordo definitivo foi assinado em abril daquele ano. [7, 8]
A Nokia pretendia participar da construção de uma plataforma competitiva, com uma programação conjunta de desenvolvimento e iniciativas de marketing. O anúncio tratava esses resultados como objetivos. Não havia, naquele momento, garantia de que a nova combinação recuperaria a posição da empresa. [7]
O relatório anual de 2011 registra a dificuldade de atravessar essa mudança. A Nokia havia estimado vender aproximadamente 150 milhões de aparelhos adicionais com Symbian nos anos seguintes ao anúncio da parceria. A demanda, contudo, caiu mais rapidamente do que a companhia previa, levando-a a rever a expectativa. [9]
A pressão apareceu nos resultados da divisão Smart Devices. A margem bruta passou de 30,8% em 2010 para 23,7% em 2011. A empresa atribuiu a redução, entre outros fatores, à queda de preços em ritmo superior à redução de custos, ao ambiente competitivo e a ajustes relacionados ao Symbian. Era uma transição que afetava os produtos ainda vendidos enquanto a nova estratégia era construída. [9]
O que a Microsoft comprou em 2014
A venda foi anunciada em setembro de 2013 e concluída em 25 de abril de 2014. O objeto principal era praticamente toda a divisão Devices & Services, acompanhada de um acordo de licenciamento de patentes. O comunicado de conclusão mencionava um preço inicialmente anunciado de € 5,44 bilhões, sujeito a ajustes. [1]
Isso não significava a aquisição de toda a Nokia Corporation. A distinção é essencial: uma companhia pode vender a operação pela qual é mais conhecida pelo consumidor e continuar atuando em outros mercados. Tampouco a permanência do nome em produtos futuros significa que a antiga estrutura de fabricação permaneceu intacta. [1, 10]
A Nokia das redes e o retorno da marca aos telefones
A reorganização ganhou outra dimensão em 2016. Em 14 de janeiro, Nokia e Alcatel-Lucent começaram a operar de forma combinada. O grupo reunia equipamentos e serviços para redes móveis, fixas e de transmissão de dados, além de atividades de pesquisa e propriedade intelectual. A trajetória dos Bell Labs passou a integrar essa estrutura. [2]
Os clientes centrais desse negócio eram organizações como operadoras e grandes empresas. Para o público, a marca podia aparecer menos na vitrine, enquanto seus produtos atendiam a uma parte menos visível da comunicação: as redes que transportam os dados. [2]
Em maio de 2016, a HMD Global anunciou um acordo de licenciamento com a Nokia Technologies para usar a marca em celulares e tablets. A HMD era uma companhia independente. O contrato anunciado previa dez anos de direitos de uso e licenças de patentes essenciais a padrões celulares. Esse foi o arranjo divulgado naquele momento, não uma descrição automática dos termos vigentes em qualquer ano posterior. [10]
O retorno de telefones com o nome Nokia, portanto, ocorreu por meio de licenciamento. Marca, fabricante do aparelho e titular das tecnologias passaram a exigir atenção separada. [10]
O que a Nokia faz hoje
O avanço em infraestrutura prosseguiu. Em 28 de fevereiro de 2025, a Nokia concluiu a aquisição da Infinera, empresa de redes ópticas. A operação ampliou sua presença na transmissão de dados, inclusive na conexão entre centros de processamento. [11]
O relatório referente ao segundo trimestre de 2026 mostra a importância dessas atividades: a companhia informou crescimento de vendas em infraestrutura de redes e em infraestrutura móvel, com expansão das vendas para clientes de inteligência artificial e computação em nuvem. O mesmo documento registrou impacto das reestruturações sobre o resultado operacional reportado. Crescimento em novos mercados e custos de transformação coexistiam. [12]
A Nokia sobreviveu à perda de protagonismo nos celulares, mas isso não apaga a ruptura que atingiu aquele negócio. Sua história reúne dois movimentos: a dificuldade de sustentar a liderança em uma mudança de plataforma e a continuidade de uma empresa que tinha outras competências e ativos. Para entender o que aconteceu, é preciso acompanhar ambos. [9, 2, 12]
Fontes e documentos
- Nokia completes sale of substantially all of its Devices & Services business to Microsoft — Nokia.
- Nokia celebrates first day of combined operations with Alcatel-Lucent — Nokia.
- Nokia’s tradition of adaptability — ThisisFINLAND / Ministério das Relações Exteriores da Finlândia.
- The Nokia 3310 turns 20 — WIRED.
- Nokia N95: apresentação oficial, reproduzida integralmente — Nokia / All About Symbian.
- iPhone App Store Downloads Top 10 Million in First Weekend — Apple.
- Nokia and Microsoft Announce Plans for a Broad Strategic Partnership — Microsoft.
- Nokia and Microsoft Sign Definitive Agreement Ahead of Schedule — Microsoft.
- Form 20-F 2011, relatório anual — Nokia.
- HMD Global founded to create new generation of Nokia-branded mobile phones and tablets — HMD Global.
- Nokia completes acquisition of Infinera — Nokia.
- Nokia Corporation report for Q2 and half year 2026 — Nokia.
Imagem de capa: Nokia 3310 fotografado em 2011. O aparelho representa a fase dos telefones populares abordada nesta história. Foto: Thomas Kohler · CC BY 2.0. Cópia otimizada.


